sexta-feira, 8 de fevereiro de 2019

outro comentário sobre john

o tempo ainda mexe comigo
como um vento quente em minha memória,
daqueles que sopram pelo meio das coxas sussurrando seu nome
e que fazem brotar suor doce e almiscarado em minha intimidade

o tempo mexe comigo quando penso em seus lábios
e no sal da sua pele
causando formigamento, não mais como um vento
mas como a espuma do mar efervescendo em minha nuca

a felicidade é uma arma quente, dizem,
e esteja ela de gravata borboleta ou suspensórios amarelos,
é com seu tilintar sonoro em minhas canelas que atravesso a rua A
parada em teus sinais e doida pra te olhar

o tempo se remexe em mim, e eu ecoo rimas roubadas
pensando por quanto tempo mais
serás presença em minha memória
e ausência em meu sexo

o vento, a espuma e o bafo quente da felicidade em meus pés
mais do que mexem comigo, mais até que o tempo
muito mais que a memória,
ainda muito menos que você

sábado, 26 de janeiro de 2019

noutra dimensão

em minha cama, ensopada de suor
imagino-me flutuando ao seu redor
como ponto matemático em movimento
substanciada em gozo, modo sonoro

em meu banheiro, arrodeada de vozes
rindo-me de todo entendimento
que elas, por si, não conseguem configurar
que eu, por mim, não cato na primeira ficha

em minhas memórias, eu nado
como quem morre afogada, buscando saída
como quem morre de sede, buscando alívio
como quem morre de dor, buscando colo

em minha voz, afundo
pois não há figura que a represente
nem sonho que a acalante
que não o ambiente ao seu redor

sexta-feira, 9 de novembro de 2018

ode ao unicórnio cor-de-rosa

aura rosa, coração de água e ar
sentirei saudades desse abraço,  amigo!
unicórnios e fantasmas cabeludos ainda presentes em minha mente
mas a opinião pública é um mal iminente.

será que não sabem os homens, que como gregor samsa, somos mais que insetos asquerosos? será que não sabem os homens que somos capazes de todo um rol de sensações e sentimentos humanos?

meu coração está de luto de te ver partir de mim
a insônia e a fome são para eles, como um espetáculo de sofrimento
e assim se fecham as figuras, sob um fundo sombrio e uma leve desesperança

mas que o bem que há em nós se sobreponha a tudo isso, pois somos mais que pontos ou linhas nesse plano em alfa.

máquinas libertas do tempo, somos partículas-onda, seres de amor, tão leves (e paradoxalmente densos) quanto a luz.

sábado, 1 de setembro de 2018

havia algo nele, uma certa aura rósea, disponível. para um feminino exausto da masculinidade prepotente e arrogante, sua essência era afrodisíaca. não era possível declarar com certeza se era apenas uma impressão projetada pela sua sede de algo que desse novas cores a sua vida ou se se tratava de uma percepção real. a atração era inevitável e a consumação do desejo impossível, uma combinação irresistível para uma mulher como ela. seu desejo era ao mesmo tempo sorvê-lo em silêncio e seduzi-lo sem pudor. isso permeava suas fantasias de maneira tal que passou a ser impossível distinguir se a presença dele em seus atos solitários era apenas uma produção do seu inconsciente ou se ele estava de fato lá, expresso quanticamente. essa ideia dominava seus sentidos e ela podia vê-lo seduzido pelo seu desejo e a desejando de volta. dormir era, antes disso, uma tormenta de pensamentos e às vezes ela podia ver o sol nascer sem que sua mente silenciasse o suficiente para descansar. desde que esse desejo róseo se apoderou dela, a mera imagem de se ver dominada e submissa a ele abrandava os turbilhões da sua alma, e ela dormia. ele era visita garantida na madrugada, e a cama, pela manhã, estava sempre molhada de seus sonhos.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

urbano pós-moderno

o dia corre
meia noite, meio dia, meia noite
nada mais cabe em 24 horas

nossa mente, sempre atenta
busca pelo que distrai:
entretenimento selvagem
pois há cada vez menos no mundo
e a realidade nos lança em negação

mas o esforço de viver nosso parco tempo
como quem deixa marcas
é a nossa única salvação

domingo, 19 de novembro de 2017

eu: cariátide

estou em sua penteadeira
entre os batons e os perfumes
como uma bailarina, presa numa caixinha de música
olhando para você, que se olha no espelho
estou objetificada, e sirvo à tua vaidade
numa relação abusiva e,
por todo o sutil, ocultada. 

domingo, 5 de novembro de 2017

rima exposta

de que me vale ser filha da santa?
melhor seria ser filha da puta!
assim, a covardia seria meu espelho
e os gritos desumanos de madrugada não seriam meus
eu dormiria embriagada
e riria, em sonho, dos monstros da lagoa 

domingo, 15 de outubro de 2017

maiêutica heterofágica

alimento-me do Outro:
de maneira intrafísica, ele me serve
emoções (material de trabalho poético)
e ideias sobre o mundo

a ciência não conhece o Outro
que se esconde nos brejos da minha alma
à espera de água ou fogo, e nunca ar

sufoca-me tua presença ululante
percepções errôneas sobre meu ser
- desserviço à minha identidade!
mas quem sou senão a negação de tudo o que pensas?

apenas uma existência remota:
Hefesto sem forja, sem ferro e sem tema.
- a maiêutica heterofágica me transforma.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

misantropia



(a Frederico Campos)

tudo o que vejo é falso
agradecimentos condicionados ao quid pro quo
sorrisos conveniados pela necessidade
êxtases egoístas em pílulas douradas de amor ao próximo

não há desesperança que me baste na humanidade
e no entanto aqui estou
participando da sociedade do prazer e do espetáculo como se fosse um dos vossos
enquanto por dentro me corrôo em ódio
em parte de mim por não ser como sois

domingo, 3 de setembro de 2017

feminino objetal

meu objeto está disperso no mundo
quero preencher-me de emoções até depois do transbordar do cálice
de que vale ser um peixe
se não posso afogar-me e ainda assim permanecer vivo?