sábado, 1 de setembro de 2018

havia algo nele, uma certa aura rósea, disponível. para um feminino exausto da masculinidade prepotente e arrogante, sua essência era afrodisíaca. não era possível declarar com certeza se era apenas uma impressão projetada pela sua sede de algo que desse novas cores a sua vida ou se se tratava de uma percepção real. a atração era inevitável e a consumação do desejo impossível, uma combinação irresistível para uma mulher como ela. seu desejo era ao mesmo tempo sorvê-lo em silêncio e seduzi-lo sem pudor. isso permeava suas fantasias de maneira tal que passou a ser impossível distinguir se a presença dele em seus atos solitários era apenas uma produção do seu inconsciente ou se ele estava de fato lá, expresso quanticamente. essa ideia dominava seus sentidos e ela podia vê-lo seduzido pelo seu desejo e a desejando de volta. dormir era, antes disso, uma tormenta de pensamentos e às vezes ela podia ver o sol nascer sem que sua mente silenciasse o suficiente para descansar. desde que esse desejo róseo se apoderou dela, a mera imagem de se ver dominada e submissa a ele abrandava os turbilhões da sua alma, e ela dormia. ele era visita garantida na madrugada, e a cama, pela manhã, estava sempre molhada de seus sonhos.

quarta-feira, 13 de junho de 2018

urbano pós-moderno

o dia corre
meia noite, meio dia, meia noite
nada mais cabe em 24 horas

nossa mente, sempre atenta
busca pelo que distrai:
entretenimento selvagem
pois há cada vez menos no mundo
e a realidade nos lança em negação

mas o esforço de viver nosso parco tempo
como quem deixa marcas
é a nossa única salvação

domingo, 19 de novembro de 2017

eu: cariátide

estou em sua penteadeira
entre os batons e os perfumes
como uma bailarina, presa numa caixinha de música
olhando para você, que se olha no espelho
estou objetificada, e sirvo à tua vaidade
numa relação abusiva e,
por todo o sutil, ocultada. 

domingo, 5 de novembro de 2017

rima exposta

de que me vale ser filha da santa?
melhor seria ser filha da puta!
assim, a covardia seria meu espelho
e os gritos desumanos de madrugada não seriam meus
eu dormiria embriagada
e riria, em sonho, dos monstros da lagoa 

domingo, 15 de outubro de 2017

maiêutica heterofágica

alimento-me do Outro:
de maneira intrafísica, ele me serve
emoções (material de trabalho poético)
e ideias sobre o mundo

a ciência não conhece o Outro
que se esconde nos brejos da minha alma
à espera de água ou fogo, e nunca ar

sufoca-me tua presença ululante
percepções errôneas sobre meu ser
- desserviço à minha identidade!
mas quem sou senão a negação de tudo o que pensas?

apenas uma existência remota:
Hefesto sem forja, sem ferro e sem tema.
- a maiêutica heterofágica me transforma.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

misantropia



(a Frederico Campos)

tudo o que vejo é falso
agradecimentos condicionados ao quid pro quo
sorrisos conveniados pela necessidade
êxtases egoístas em pílulas douradas de amor ao próximo

não há desesperança que me baste na humanidade
e no entanto aqui estou
participando da sociedade do prazer e do espetáculo como se fosse um dos vossos
enquanto por dentro me corrôo em ódio
em parte de mim por não ser como sois

domingo, 3 de setembro de 2017

feminino objetal

meu objeto está disperso no mundo
quero preencher-me de emoções até depois do transbordar do cálice
de que vale ser um peixe
se não posso afogar-me e ainda assim permanecer vivo?

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

o verso dela

seu eu superior
espera ansiosamente poder te contar
de coisas belas e sujas
a poesia da chegada de um filho
o sabor da laranja azeda
a dose certa da peçonha
a verdadeira cor de um beijo

às vezes é difiicl aceitar
que estamos no pólo inferior de nós mesmos
e é preciso coragem
para atravessar o portal da maturidade

segunda-feira, 2 de maio de 2016

carta ao mundo de uma mente natural

adeus, mundo cruel!
eu te amei, você me amou
sofremos juntos, mas agora acabou
eu me vou e você não fica
pois sem mim você não existe
e sem você, ainda sou vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

amélia não tinha a menor vaidade

quando eu era adolescente, acreditava que feminismo era sinônimo de lutar pelo direito da mulher trabalhar e namorar com quem bem quisesse e sob os parâmetros que os homens, em geral, namoravam. aos poucos, fui percebendo que feminismo ia mais além, era pelo direito à igualdade de direitos e deveres, pela autonomia econômica e política.

mas até descobrir uma recente vocação (talvez adormecida pelo conceito daquela atitude feminista enquanto necessária à sobrevivência social de uma mulher dita moderna), eu não tinha consciência real de que "o lugar da mulher é onde ela quer estar". achava mesmo que a mulher precisava se autossustentar, estar ativa no mercado de trabalho, ter suas próprias coisas e não precisar, nunca, de ninguém.

eu, mulher, romântica, culta, espiritualista: quero estar em casa, cuidando do meu marido, da minha casa e da minha filha, estando atenta à educação dela e às necessidade dos dois.

e, mais do que nunca, preciso manter-me feminista, porque até mesmo o machismo feminino (o que hoje eu entendo como feminazi) reclama das mulheres que preferem estar com a barriga no fogão e ser mulher de alguém por opção própria.

"amélia não tinha a menor vaidade..."