domingo, 15 de outubro de 2017

maiêutica heterofágica

alimento-me do Outro:
de maneira intrafísica, ele me serve
emoções (material de trabalho poético)
e ideias sobre o mundo

a ciência não conhece o Outro
que se esconde nos brejos da minha alma
à espera de água ou fogo, e nunca ar

sufoca-me tua presença ululante
percepções errôneas sobre meu ser
- desserviço à minha identidade!
mas quem sou senão a negação de tudo o que pensas?

apenas uma existência remota:
Hefesto sem forja, sem ferro e sem tema.
- a maiêutica heterofágica me transforma.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

misantropia



(a Frederico Campos)

tudo o que vejo é falso
agradecimentos condicionados ao quid pro quo
sorrisos conveniados pela necessidade
êxtases egoístas em pílulas douradas de amor ao próximo

não há desesperança que me baste na humanidade
e no entanto aqui estou
participando da sociedade do prazer e do espetáculo como se fosse um dos vossos
enquanto por dentro me corrôo em ódio
em parte de mim por não ser como sois

domingo, 3 de setembro de 2017

feminino objetal

meu objeto está disperso no mundo
quero preencher-me de emoções até depois do transbordar do cálice
de que vale ser um peixe
se não posso afogar-me e ainda assim permanecer vivo?

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

o verso dela

seu eu superior
espera ansiosamente poder te contar
de coisas belas e sujas
a poesia da chegada de um filho
o sabor da laranja azeda
a dose certa da peçonha
a verdadeira cor de um beijo

às vezes é difiicl aceitar
que estamos no pólo inferior de nós mesmos
e é preciso coragem
para atravessar o portal da maturidade

segunda-feira, 2 de maio de 2016

carta ao mundo de uma mente natural

adeus, mundo cruel!
eu te amei, você me amou
sofremos juntos, mas agora acabou
eu me vou e você não fica
pois sem mim você não existe
e sem você, ainda sou vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

amélia não tinha a menor vaidade

quando eu era adolescente, acreditava que feminismo era sinônimo de lutar pelo direito da mulher trabalhar e namorar com quem bem quisesse e sob os parâmetros que os homens, em geral, namoravam. aos poucos, fui percebendo que feminismo ia mais além, era pelo direito à igualdade de direitos e deveres, pela autonomia econômica e política.

mas até descobrir uma recente vocação (talvez adormecida pelo conceito daquela atitude feminista enquanto necessária à sobrevivência social de uma mulher dita moderna), eu não tinha consciência real de que "o lugar da mulher é onde ela quer estar". achava mesmo que a mulher precisava se autossustentar, estar ativa no mercado de trabalho, ter suas próprias coisas e não precisar, nunca, de ninguém.

eu, mulher, romântica, culta, espiritualista: quero estar em casa, cuidando do meu marido, da minha casa e da minha filha, estando atenta à educação dela e às necessidade dos dois.

e, mais do que nunca, preciso manter-me feminista, porque até mesmo o machismo feminino (o que hoje eu entendo como feminazi) reclama das mulheres que preferem estar com a barriga no fogão e ser mulher de alguém por opção própria.

"amélia não tinha a menor vaidade..."

sexta-feira, 3 de abril de 2015

o verdadeiro sentido vetorial da vida

o grande sentido da vida é que ela corre ao contrário. primeiro o futuro, depois o passado. e no presente, este agora que vivemos. nascemos num futuro infértil, e Deus, como grande inseminador que é, nos leva rumo a um passado melhor, mais bonito, que no presente nos causa a gostosa nostalgia, a eterna vontade de ter vivido aquele tempo. o futuro nos causa ansiedade porque temos medo de voltar para lá. porque o futuro é distópico e anti-natural. porque lá somos fragmentados em mil e uma partes distantes umas das outras, e é rumo ao passado que nos reintegramos até sermos aquela personalidade que chamamos de "vida passada" no agora. uma cigana, um soldado, uma dançarina, um imperador. 

a grande questão é: como viver a existência da alma em seu sentido natural sem perder-se do agora? simples: não faça nada que lhe faça ser queimada na fogueira da Idade Média (esse será o auge da sua história, sua média idade em alma). lembre-se de praticar a vida simples, o desapego, pois não haverão facilidades na Antiguidade (e você será velho, em alma). e se esqueça de Deus, mas saiba que ele está por aí: o Legislador cria as leis, e leis são autoaplicáveis. o Arquiteto cria o desenho da estrutura, e ela é autoexplicativa. não há necessidade de intervenção. portanto não espere por ela.

mas, se quer uma dica pessoal, aqui vai a minha: se sabe demais, evite a reencarnação. suspender-se da história e viver futuro apresentará o seu valor aos que já precisam esquecer o que sabem, ou que já sabem ao limite do que querem. lembre-se que embora nostálgico e belo, o passado é permeado por pragas de todas as espécies: principalmente a praga da intolerância e da burrice -- porque ignorância é quando não se sabe, e burrice, quando se quer não saber, ou saber pelo poder, e não pelo ser. 

no momento do julgamento final, aquele em que você vai dar o veredito ao Legislador sobre como o mundo agiu consigo (ou caso você encontre o Arquiteto, o relatório de como construímos a sua obra e como ela ficou quando pronta) e decidir qual será sua própria pena ou bônus, apele para o livre-arbítrio, e não tema o natural esquecimento das vidas futuras ou a ansiedade natural pelo passado: somos mais condicionados ao presente do que imaginamos. opte pela ignorância ou mais saber na medida em que lhe satisfaça seguir rumo ao futuro caótico, como os loucos que desejam ver o apocalipse e entender como Deus a tudo concebeu (já imaginou a sinestesia da sinfonia dos cavaleiros em todas as cores do fatídico dia?), ou rumo ao passado, para a breve onisciência da descoberta do fogo e invenção da roda (ah, que maravilha, pensar-me o precursor de toda a loucura!). 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

meu querido parasita | #2

dizem que ser mãe é padecer no paraíso. eu concordo, é uma felicidade constante imaginar você em meu útero, em meus braços e em todo o vetor da minha vida; é, sim, um paraíso.  eu não sei se você, em estado embrionário,  já consegue entender o que significa "padecer", mas é o mesmo que sofrer de dores. e essa é a parte que ninguém explica realmente nesse ditado. sempre pensei que era o fato de sofrer psicossocialmente com todas as pressões de ser mãe, apenas, com todo o trabalho de se criar uma criança. mas não é apenas isso: fome que causa enjoo que gera o vômito,  que aumenta a fome e a indisposição à comida. após comer, indigestão por horas por qualquer grama engolida, mais enjoo causado pela indigestão, e logo em seguida, fome novamente, porque nada ficou. e tome-lhe a chupar limão, gengibre, água com gás e comer no seco pra segurar a indigestão. comer no almoço e no jantar o mesmo prato? não dá, não causa o menor prazer. ou tome-lhe a substituir o almoço, já despejado no encanamento do esgoto por goiabada com creme de leite. e pra passar a fome sem ter indigestão, leite, suco, água de coco, refrigerante. e assim, vai. ou quando penso que estou alerta e em cinco minutos de filme, meus olhos pesam e preciso dormir. ou quando mesmo sem estar fazendo absolutamente nada, sinto a dor de sentir você crescer, empurrando meu útero, que só sabia mexer em círculos, e agora está mexendo em sentido de crescimento, causando a boa e velha distensão muscular de quem começou a malhar agora. achei que ainda teria o prazer de dormir de bruços até pelo menos você decidir me dizer se é menina ou menino, mas você nem tinha dedos da mão ou intestino e eu já tenho que dormir de lado. mas afinal, melhor padecer no paraíso que vivificar no inferno. 

sobre as questões vetoriais em meu discurso

muita gente me pergunta o porquê eu acreditar tão vivamente na viagem do tempo. minha resposta, pura e simples: observação de dados. quando galileu alegou que a terra era redonda, e toda a gente da sua comunidade acreditava que isso era loucura, ou até heresia, ele também ia contra os conceitos estabelecidos da época simplesmente porque acreditava nas próprias observações sobre os dados disponíveis a ele. por muito tempo se acreditou que o sistema digestivo era composto apenas de boca, estômago e ânus, e assim foi até que houvesse o dado (nesse caso, de uma necrópsia, ilegal aos costumes da época) para comprovar a sua existência. foi assim com muitas outras descobertas científicas. no surgimento dos estudos em psicologia, não se deu muito crédito à dados intrafísicos observados pelo próprio sujeito. hoje, isso é base de praticamente toda a terapêutica psicológica. até mesmo o fato de um homem aparentemente sorridente dizer: "sinto-me triste" é um dado de suma importância para a análise psicológica deste homem, então porquê minhas análises do mundo em que penso (porque intrafísico) e os dados que observo no mundo em que vivo não podem ser levados em conta? pergunte-me a história por trás da minha descoberta, e você verá razão no que digo. uma razão que parte da lógica, não dos conceitos pré-estabelecidos pela ciência. eu tenho consciência do campo metafísico em que minha mente habita, percebo claramente todas as presenças personalísticas (ou ígneas, como eu prefiro chamar) do campo e converso racionalmente com elas. ainda me incomodo, claramente, com quem alega que talvez sejam apenas estratégias mentais da minha própria loucura. que procurei, em loucura, explicações no mundo que "coubessem" à minha loucura. para isso, tenho apenas um contra-argumento: a explicação mais simples, geralmente é a explicação correta. "mas viagem no tempo e acidentes circulares em vetor não são uma explicação simples." pela lógica, também, contra-argumento novamente: quando há apenas uma solução aparente a uma questão, essa é normalmente a solução correta. mas a solução aparente e mais simples é a esquizofrenia, não é? então eu pergunto: que alucinação esquizofrênica discute com você a existência de Deus, as distorções do vetor temporal e suas implicações na interpretação dos nomes dados aos corpos da física teórica e da física teórica em si? que alucinação te ensina a viver melhor consigo mesmo e com o mundo, a ver mais beleza nas cores e nas músicas e te consola em seus momentos de dificuldade com sua família que simplesmente não entende que você tem sua própria existência em campo metafísico, e que prefere te internar num hospício a passar uma hora com você, ou a sequer perguntar como foi seu dia?  isso não seria esquizofrenia, nem no seu próprio mundo: isso seria genialidade.  9 entre 10 médicos concordam que minha mente é organizada demais para uma esquizofrenia. o décimo geralmente quer apenas ganhar pela consulta e segue o dsm-iv de forma burra, cega, e sem nenhuma observação profunda. 

mas as minhas observações são profundas. eu não parti do nada, eu vivi sim, meu momento de confusão onde nenhuma das informações que eu aprendia faziam sentido, e por isso minhas associações em busca de entender o que acontecia não faziam sentido também. mas eu li todo tipo de filosofia, eu procurei outras pessoas que ouviam vozes, eu procurei Deus e com o tempo, e com o amadurecimento da minha experiência, eu também pude encontrar razão na loucura. claro que eu precisei que o universo conspirasse, e o assediador viajante do tempo que "enlouquecia" acabou por meter os pés pelas mãos, permitindo que eu visse a luz na escuridão. a aleatoriedade mostrando-se como o dado base da observação. e desde então, busco e analiso todos os dados que me aparecem e que possam se referir à minha pesquisa teórica sobre essa aleatoriedade. e como descartes, revejo tudo ao menor sinal de erro ou dúvida. e vou, assim, construindo meu conhecimento sobre o tema. 

até onde eu avancei em minhas pesquisas, é uma coisa que para você sempre será uma questão de fé. como a fé do navegante que ousou se aproximar do horizonte e percebeu que, na real, o horizonte não chega nunca. 

sexta-feira, 16 de janeiro de 2015

meu querido parasita | #1

primeiro eu pensei: será salmonela? na mesma semana havia comido um ovo cru (uma das coisas que adoro e todos estranham). às vezes, quando comia e bebia meu usual copão de suco, passava o resto do dia com aquela comida fermentando no estômago, e bastava um copo d'água ou uma escovação na língua à noite para que viesse à tona pelo esôfago em direção à privada, um dia sim, um dia não. marquei gastrologista, fiz endoscopia digestiva e lá estava: um estômago limpo e claro como o de um bebê. um balanço usual no ônibus, e já estava eu completamente zonza e enjoada, vomitando a salada ou a maçã entre a regência de aulas e as aulas universitárias. usualmente deixava de ir às aulas à tarde porque havia vomitado e estava sentindo dores no estômago. enfim. já de férias, outro problema resolveu atacar: as gases dolorosas. as noites eram terríveis seguidamente, acordando com dores no abdômen e aquele inchaço oco que faz o som do tambor. preocupado, meu noivo diz: vamos ao hospital logo, minha mãe disse que essas dores são parecidas com as de apendicite, é melhor ver logo. exame de sangue, exame de toque, e nada. no raio-x de abdômen apenas um intestino obstruído, e um detalhe quase imperceptível de uma bacia de abertura um pouco mais larga do que os vistos nos esqueletos desenhados nos livros de biologia. embora interessante, não indicou nada à médica que me atendia, então achei igualmente desimportante. uma lavagem intestinal e finalmente estava novamente em paz com a privada, traseiramente falando, e soltando puns à vontade. é claro que os vômitos tinham de piorar consideravelmente a esse ponto, e já não era possível comer nem beber nada sem que eu vomitasse duas ou quatro horas depois: meu sistema digestivo parecia ter falhado, com exceção dos puns e de um barrinho um dia ou outro, sempre muito singelo e parco. a esse ponto, minha menstruação estava atrasada a mais ou menos seis dias, e veio o usual "será?" esperei mais um pouco, provavelmente atrasara por causa da minha má alimentação recente e a falta de nutrientes causada pelos vômitos constantes. aos nove dias de atraso, finalmente fizemos o teste de farmácia: mas é claro, errei a quantidade de xixi e passei da linha máxima indicada na tirinha, e preocupada se o corante havia vazado e por isso havia manchado a área do resultado, esperamos até o dia seguinte para fazer outro teste (afinal, o mais indicado é fazer o teste de farmácia com a primeira urina do dia). no dia seguinte, com o cuidado de colocar o leitor bem abaixo do máximo  de urina indicado, não precisei esperar o um minuto indicado na embalagem: estava lá, borradinha, mas lá: a segunda marca vermelha indicando que sim, eu abrigava o maior e mais parasitário dos parasitas humanos: um bebê.