domingo, 19 de novembro de 2017

eu: cariátide

estou em sua penteadeira
entre os batons e os perfumes
como uma bailarina, presa numa caixinha de música
olhando para você, que se olha no espelho
estou objetificada, e sirvo à tua vaidade
numa relação abusiva e,
por todo o sutil, ocultada. 

domingo, 5 de novembro de 2017

rima exposta

de que me vale ser filha da santa?
melhor seria ser filha da puta!
assim, a covardia seria meu espelho
e os gritos desumanos de madrugada não seriam meus
eu dormiria embriagada
e riria, em sonho, dos monstros da lagoa 

domingo, 15 de outubro de 2017

maiêutica heterofágica

alimento-me do Outro:
de maneira intrafísica, ele me serve
emoções (material de trabalho poético)
e ideias sobre o mundo

a ciência não conhece o Outro
que se esconde nos brejos da minha alma
à espera de água ou fogo, e nunca ar

sufoca-me tua presença ululante
percepções errôneas sobre meu ser
- desserviço à minha identidade!
mas quem sou senão a negação de tudo o que pensas?

apenas uma existência remota:
Hefesto sem forja, sem ferro e sem tema.
- a maiêutica heterofágica me transforma.


sexta-feira, 22 de setembro de 2017

misantropia



(a Frederico Campos)

tudo o que vejo é falso
agradecimentos condicionados ao quid pro quo
sorrisos conveniados pela necessidade
êxtases egoístas em pílulas douradas de amor ao próximo

não há desesperança que me baste na humanidade
e no entanto aqui estou
participando da sociedade do prazer e do espetáculo como se fosse um dos vossos
enquanto por dentro me corrôo em ódio
em parte de mim por não ser como sois

domingo, 3 de setembro de 2017

feminino objetal

meu objeto está disperso no mundo
quero preencher-me de emoções até depois do transbordar do cálice
de que vale ser um peixe
se não posso afogar-me e ainda assim permanecer vivo?

quarta-feira, 16 de agosto de 2017

o verso dela

seu eu superior
espera ansiosamente poder te contar
de coisas belas e sujas
a poesia da chegada de um filho
o sabor da laranja azeda
a dose certa da peçonha
a verdadeira cor de um beijo

às vezes é difiicl aceitar
que estamos no pólo inferior de nós mesmos
e é preciso coragem
para atravessar o portal da maturidade

segunda-feira, 2 de maio de 2016

carta ao mundo de uma mente natural

adeus, mundo cruel!
eu te amei, você me amou
sofremos juntos, mas agora acabou
eu me vou e você não fica
pois sem mim você não existe
e sem você, ainda sou vida.

segunda-feira, 1 de junho de 2015

amélia não tinha a menor vaidade

quando eu era adolescente, acreditava que feminismo era sinônimo de lutar pelo direito da mulher trabalhar e namorar com quem bem quisesse e sob os parâmetros que os homens, em geral, namoravam. aos poucos, fui percebendo que feminismo ia mais além, era pelo direito à igualdade de direitos e deveres, pela autonomia econômica e política.

mas até descobrir uma recente vocação (talvez adormecida pelo conceito daquela atitude feminista enquanto necessária à sobrevivência social de uma mulher dita moderna), eu não tinha consciência real de que "o lugar da mulher é onde ela quer estar". achava mesmo que a mulher precisava se autossustentar, estar ativa no mercado de trabalho, ter suas próprias coisas e não precisar, nunca, de ninguém.

eu, mulher, romântica, culta, espiritualista: quero estar em casa, cuidando do meu marido, da minha casa e da minha filha, estando atenta à educação dela e às necessidade dos dois.

e, mais do que nunca, preciso manter-me feminista, porque até mesmo o machismo feminino (o que hoje eu entendo como feminazi) reclama das mulheres que preferem estar com a barriga no fogão e ser mulher de alguém por opção própria.

"amélia não tinha a menor vaidade..."

sexta-feira, 3 de abril de 2015

o verdadeiro sentido vetorial da vida

o grande sentido da vida é que ela corre ao contrário. primeiro o futuro, depois o passado. e no presente, este agora que vivemos. nascemos num futuro infértil, e Deus, como grande inseminador que é, nos leva rumo a um passado melhor, mais bonito, que no presente nos causa a gostosa nostalgia, a eterna vontade de ter vivido aquele tempo. o futuro nos causa ansiedade porque temos medo de voltar para lá. porque o futuro é distópico e anti-natural. porque lá somos fragmentados em mil e uma partes distantes umas das outras, e é rumo ao passado que nos reintegramos até sermos aquela personalidade que chamamos de "vida passada" no agora. uma cigana, um soldado, uma dançarina, um imperador. 

a grande questão é: como viver a existência da alma em seu sentido natural sem perder-se do agora? simples: não faça nada que lhe faça ser queimada na fogueira da Idade Média (esse será o auge da sua história, sua média idade em alma). lembre-se de praticar a vida simples, o desapego, pois não haverão facilidades na Antiguidade (e você será velho, em alma). e se esqueça de Deus, mas saiba que ele está por aí: o Legislador cria as leis, e leis são autoaplicáveis. o Arquiteto cria o desenho da estrutura, e ela é autoexplicativa. não há necessidade de intervenção. portanto não espere por ela.

mas, se quer uma dica pessoal, aqui vai a minha: se sabe demais, evite a reencarnação. suspender-se da história e viver futuro apresentará o seu valor aos que já precisam esquecer o que sabem, ou que já sabem ao limite do que querem. lembre-se que embora nostálgico e belo, o passado é permeado por pragas de todas as espécies: principalmente a praga da intolerância e da burrice -- porque ignorância é quando não se sabe, e burrice, quando se quer não saber, ou saber pelo poder, e não pelo ser. 

no momento do julgamento final, aquele em que você vai dar o veredito ao Legislador sobre como o mundo agiu consigo (ou caso você encontre o Arquiteto, o relatório de como construímos a sua obra e como ela ficou quando pronta) e decidir qual será sua própria pena ou bônus, apele para o livre-arbítrio, e não tema o natural esquecimento das vidas futuras ou a ansiedade natural pelo passado: somos mais condicionados ao presente do que imaginamos. opte pela ignorância ou mais saber na medida em que lhe satisfaça seguir rumo ao futuro caótico, como os loucos que desejam ver o apocalipse e entender como Deus a tudo concebeu (já imaginou a sinestesia da sinfonia dos cavaleiros em todas as cores do fatídico dia?), ou rumo ao passado, para a breve onisciência da descoberta do fogo e invenção da roda (ah, que maravilha, pensar-me o precursor de toda a loucura!). 

quinta-feira, 19 de fevereiro de 2015

meu querido parasita | #2

dizem que ser mãe é padecer no paraíso. eu concordo, é uma felicidade constante imaginar você em meu útero, em meus braços e em todo o vetor da minha vida; é, sim, um paraíso.  eu não sei se você, em estado embrionário,  já consegue entender o que significa "padecer", mas é o mesmo que sofrer de dores. e essa é a parte que ninguém explica realmente nesse ditado. sempre pensei que era o fato de sofrer psicossocialmente com todas as pressões de ser mãe, apenas, com todo o trabalho de se criar uma criança. mas não é apenas isso: fome que causa enjoo que gera o vômito,  que aumenta a fome e a indisposição à comida. após comer, indigestão por horas por qualquer grama engolida, mais enjoo causado pela indigestão, e logo em seguida, fome novamente, porque nada ficou. e tome-lhe a chupar limão, gengibre, água com gás e comer no seco pra segurar a indigestão. comer no almoço e no jantar o mesmo prato? não dá, não causa o menor prazer. ou tome-lhe a substituir o almoço, já despejado no encanamento do esgoto por goiabada com creme de leite. e pra passar a fome sem ter indigestão, leite, suco, água de coco, refrigerante. e assim, vai. ou quando penso que estou alerta e em cinco minutos de filme, meus olhos pesam e preciso dormir. ou quando mesmo sem estar fazendo absolutamente nada, sinto a dor de sentir você crescer, empurrando meu útero, que só sabia mexer em círculos, e agora está mexendo em sentido de crescimento, causando a boa e velha distensão muscular de quem começou a malhar agora. achei que ainda teria o prazer de dormir de bruços até pelo menos você decidir me dizer se é menina ou menino, mas você nem tinha dedos da mão ou intestino e eu já tenho que dormir de lado. mas afinal, melhor padecer no paraíso que vivificar no inferno.