segunda-feira, 14 de novembro de 2011

a insônia (a Anselmo e os maníacos telépatas que absorvem tudo o que não presta de si mesmos)

os anos se passam, e eu olho meus irmãos, meu pai e os familiares que me cercam, e todos os dias penso: eu posso até ser infeliz, mas nunca vi tantos homens seguindo minhas idéias e ideais. é que alguns homens, luisa, jamais saberão se contentar em ser o que são e o que fazem de fato: precisarão sempre seguir o enjôo da vida de um outro homem, para que a vida pareça-lhes mais interessante. "ao menos haverá algo a que criticar." vou dormir todos os dias pensando que talvez essa noite todos entendam que na vida tudo se associa, mas é responsabilidade de cada um o tipo de associação que se faz, o que se pensa ser possível, e como cada um se relaciona com o outro. não existe este tema inacabável que não me pareça ainda menor que a solidão em que fui jogada, dentro das mentiras de uma irmã burra e as grosserias de um homem alto, da frigidez de um pai antiquado e a ausência materna por 20 anos. a minha mãe morreu, eu ainda era jovem e não sabia o que ouvir, e todos esses homens me seguiam apenas pra me dizer 'ouça como eu, ouça o que ouço, faça o que faço", como pequenos demônios a sussurrar em meus ouvidos suas dores diárias e eu, o remédio: em ti, descarrego minha raiva pela vida e pela sua existência intacta, afinal, de mim, só recebeste carinho, nunca dolo. 

em mim, no entanto, ainda resta este trauma, de ver aos dois, dois imbecis que são, tentando julgar meus exercícios psicológicos, minhas maneiras de abstrair, minha filosofia, meu estilo de vida, enquanto não fazem da vida nada a que se possa dizer: "fica", senão a minha própria existência. pois sim, acho que meus irmãos tentaram construir em mim um personagem que estava, o tempo todo, a mercê do que havia de bom e de ruim deles e que, portanto, seguiria naturalmente, como prega o destino, oque desejaram para mim. meu pai, tenho certeza, nunca me viu. ao longo desses vinte anos, edmundo jamais pôde perceber uma faceta emocional de mim que se possa dizer sã, e esse céu traumatizado e sem estrelas que eles me propõe começa a se tornar eternamente chato, ele e a sua irmã, também chata e desesperada pela minha companhia. ser amado sob esse ponto de vista torna-se tão ruim quanto a existência do amor enquanto tema comum da sociedade. sim, concordo, são seres humanos medíocres, esses que me cercam, sempre usando sua capacidade de pensar 'amor' três vezes antes de ouvir algo como se isso os tornasse capazes de entender alguém, ou a profundidade de um tema, como se isso os salvaguardasse da própria burrice.

de onde me penso, pequenos pontos púmbleos vivos, o sol ainda é a-dimensional, e a vida, ainda minha, é a mais lúcida. se te incomoda a necessidade de trabalhar e produzir algo, vá e produza: não despeje em mim suas infelicidades e frigidez do dia-a-dia. ainda haverá um homem capaz de te provar que somos duas almas independentes uma da outra, e não a mesma. te agrada saber que sou caseira enquanto você badala, e que todas as desculpas para seus comportamentos estão no fato de você poder se comparar a mim e ainda pensar: eu sou melhor, ela é... e que você consegue usar a lista de qualidades que observo ao longo de um ano em mim, classificando minha vida como se estivesse sempre a par da sua, como a face de uma moeda? sim, porque seu 'amor' nada mais oferece além disso, é preciso deixar claro.  não é o melhor dolo pensar que foram vocês, sim, quem me deixaram como os primeiros chineses que vieram ao brasil? 

não queira a brincadeira, Anselmo: de onde me vejo, muita da minha infelicidade ainda estava ao largo antes que você puxasse o gatilho. entende? não, você pode ir a qualquer lugar, viver o que você quiser, trabalhar o que você quiser, ouvir e ver quem você quiser. mas não interessa a mim saber disso. sacou? meu sofrimento é absorver de você sua burrice, e rever meu passado como a um reflexo mal polido. se não lhe incomoda tudo o que penso, porque se diz tão disponível? sei, é pelo favor à secretária, ou pelo dolo de jamais se ver inteira se não se vir inteiramente boa. não curto a rasidão. você vive a três semanas de tudo o que penso (o suficiente pra que eu veja o eco das minhas idéias voltando de você como um boomerangue), e ainda assim, é de você mesmo me acordar de madrugada para me dizer  'discordo: eu não entendi o sentido das suas palavras, mas fica a ofensa, socialmente proliferada como os fungos. 

é que eu aprendi na infância que se chamam as mulheres de puta em qualquer situação social, com os olhos cravados aos olhos dela. e que nada que se produza é digno de ser considerado real: torna-se preciso, diante dos fatos estudados, seguirmos todas as convenções para escondê-lo de si e do outro. o homem que pensa jamais poderá viver sozinho e em paz (foi o que ensinaram aos meus irmãos na infância), e desde então, ovelha sofre a frigidez de causa familiar. é daí que vem as milhões de soluções: pois, se mude, vá viver (você e minhas idéias de jerico) na casa da porra, onde meus ouvidos não lhe possam ouvir, e meus olhos não lhe possam imaginar, onde minha solidão e tédio não possam ser dirigidos a você. afinal de contas, a culpa ainda é sua por pensar. não interessa o quanto me digam ' a vida está certa', ela ainda parece errada perto de pessoas que, como Anselmo, só pensam se precisarão contar aos amigos o que as leva a contar determinada piada de forma tão desinibida, ou o que pensam de fato, se precisarão compartilhar só as coisas boas que fazem, e ouvir por isso os comentários felizes, ou se terão de mostrar os dolos que causam aos outros seres humanos. daí o posicionamento das santas virgens, de jamais abandonarem os próprios terços em ladainhas, vem a minha irmã me pedir que não abstraia em cores durante a semana, que a tire do alcance pessoal do pai dela, e que a salve do trauma que ela mesma me causou. a culpa de eu ter acordado, e no mínimo, isso, é sua. ainda te vejo chorar o não-introjecionamento das merdas que você e os outros seres humanos pensam, ladainha, e seu gozo em se ver estrela da minha escrita.