puto & terracota




Terracota,

é uma pena, Terracota, (e não acredite em sinais), que o esquecimento seja algo tão difícil e exija tanta dor. há tanta dor, tanta coisa que nunca aconteceu, e eu digo, "esquece, Puto", pois já não há o que entender. o que nos faz pensar que amanhã será diferente de tudo que já vimos? a flor que define teu eu é a mesma que define meu sentimento banzo. mandinga, Terracota, que é apenas uma flor sem nome e sem signissência.

Puto

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Puto,

a saudade é terracota e anda secando nossas flores. eu penso 'esquece Puto', mas Terracota lembra, lembra de Puto voltando do gado, reclamando da vida e Terracota dizendo 'Puto, vai se lavar!, não te quero suado, eu te quero suor!'. a Terracota é virgem, Puto, e o sofrimento é dado. puto sofrimento é essa saudade.

Terracota

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Terracota,

em rota de fuga, penso na varanda dessa casa que deixei, e nas flores que esqueci de trazer pra lembrar a Terracota. um dia, mulher, pulando a murada verde, hei de te ver lavando as roupas, coxas à mostra, o decote suado, e não há o que me convença a esquecer o caminho entre tuas pernas. mas penso 'esquece, Puto' e sigo entre os homens em sofrimento, e à noite, me imagino em pensamento, com a cabeça em teu umbigo, rindo as gotas que me escorrem a testa pra te causar arrepio.

Puto

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Puto,

por detrás da murada da varanda, observo a rota de fuga em que seguiu, e me distraem os colibris. às vezes cantam, às vezes se riem de mim, dizendo 'ele volta, Terracota, Puto um dia volta do mar'. e me pego pensando que entre as minhas coxas virgens, já não penso ou esqueço, Puto, e já não sei se quem pensa isso sou eu de fato, ou você.

Terracota

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Terracota,

o mar deveria ter a cor dos seus olhos, que só assim esqueço, mas penso 'Puto, impossível esquecer'. te vi aqui mesmo na areia, junto às pedras e à fogueira onde os homens descansam, dançando sozinha entre os tambores e rindo. mas o mar é azul, Terracota, e logo lembro o sofrimento puto que é a saudade e durmo no castanho dos teus olhos.

Puto

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Puto,

hoje um homem riu Omar, e eu pensei teu sangue escorrendo o pelourinho. talvez ele fuja igual, talvez eu vá com ele, te encontrar em rota de fuga. eu penso, "vai, Terracota", que Puto te espera, rindo que Terracota agora é corajosa e ri a liberdade dos homens.

Terracota

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Terracota,

"o homem e a liberdade" diz que 'nenhum homem pode estar preso àquilo que não vê'. só o que vejo é meu suor e a Terracota liberta. estou preso ao seu suor, Terracota, e esse é o único paradoxo sobre a liberdade; mas penso "Puto, ainda vi as coxas dela", e me vejo homem livre.

Puto

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Puto

ainda sonhando, pensei ter visto seus olhos corroídos fugirem pela senzala, e quase corri de olhos fechados. não era você, quem escapava pela mata era o preto Tiago, e cá me vou às suas costas, sem saber onde  encontrar Puto. ele insiste que não vou, que antes de amanhecer já prego peça no varal, que sequelo sua caminhada. "Omar não mata quem não vê, Tiago", e sigo de birra, que Puto me espera e sabe Tiago de cor.

Terracota

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Terracota


a cidade é bonita, e muito agitada, há negros por toda a parte. ainda hoje cedo, conheci um que me ajudará a conseguira nossa tão sonhada liberdade. peço que avise a Tiago que não lhe deixe entrar na cidade, que há ares de luta vindo com o ar. 


Puto


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Puto


em frente ao mar, desviamos ao norte. encontrramos uma velha senhora Rosa, preta alforriada. é dela uma casa simples, onde muitos trabalham. Tiago diz que seguirá em teu encontro, ansioso pelo cheiro de pólvora.


Terracota


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Terracota

é uma bandeira bonita esta que João de Deus carrega pela cidade: azul, branca e com estrelas vermelhas. muitos escravos tomam frente nas brigas, mas ainda quero estar vivo para viver nossa liberdade, por isso mantenho Tiago sob meus olhos, e seus olhos em meu peito. apenas depois do amanhecer invadiremos a casa de documentos e roubaremos tantas cartas de alforria quantas conseguirmos por mão. desta guerra, minha preta, sei que não há de dar em nada senão sangue, então mantenho-me longe. caminho banzo fingindo-me escravo local, pensando em ti por todo o tempo.

Puto

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Puto

e ai de Puto que entre numa guerra, que lhe esfolo vivo sem pena e guardo teu couro de lençol de dormir.  banzo pouco é saudade. sinto tua chegada e me afogo em lágrimas quando peso teu corpo longe do meu. corre de volta à praia, meu preto, que é aqui o teu repouso.

Terracota

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Terracota

perdi Tiago de vistas no meio de tantos tiros que foram dados. a revolta, como pensei, não seguiu rumo de libertos, e vi escravos sendo chibatados no pelourinho. Tiago será vendido,  e saberão nossa fuga. espere-me à praia, e partiremos junto para um lugar que Tiago não saiba, pois é capaz de ser torturado a nos entregar caso encontrem os senhores da casa.

Puto

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Puto

Rosa e eu preparamos tudo, há um quilombo para longe das terras do mar para onde poderemos ir. espero ansiosa largar meus pensamentos e beijar-te a boca.

Terracota.



Terracota e Puto se encontraram na paragem de Rosa e de lá seguiram a um quilombo perto. vivem bem, e dessa liberdade que agora desfrutam, pouco resta a contar. a flor que nasce em Terracota ainda não tem nome, mas Puto lhe chamará Tiago, caso seja menino, em homenagem ao amigo perdido em combate. das cartas de alforria roubadas, serviram bem para os quilombolas, que agora são comerciantes e nunca mais se ouviram chibatas nestes libertos.