o cobrador

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Os que a viam passar com o livro erguido, enquanto observava também os buracos do caminho, sempre acabavam por se perguntar como ela conseguia ler e andar ao mesmo tempo. É um vício, diziam, e faz mal à retina. Você vai acabar descolando a retina um dia, pare de ler em movimento!  Mas ela nunca se importou com isso, era um prazer e um hábito caminhar lado a lado com as palavras. Nem sempre os buracos saíam da frente de seus pés, mas ela acabou se acostumando a ter apenas um olho focado nas páginas, e apenas um pé concentrado no caminho. O outro pé estava sempre disposto a entortar se preciso fosse, mostrando a todos sua habilidade especial: dobrar-se sobre o próprio peso e evitar a queda. 
Um dia, porém, aconteceu da palavra do livro ser igual à que o pé dizia, e na coincidência, algo se meteu no meio da mensagem. Parecia tão dúbio e correto, que ela entendeu que deveria dobrar-se ela mesma para garantir que os pés continuassem andando sem cair em buracos. Ela nunca conseguiu entender que palavra era aquela que aparecia sempre que o pé e o livro iam começar a se entender, embora soubesse era uma sensação perdida em algum lugar entre o anular e o mínimo do pé esquerdo. Era aquele dedo estranho, que, uma vez quebrado, conseguia dobrar a falange superior em direção ao mindinho, que sempre sussurrava de volta: apenas ouça o coração, e continue andando. Ela vai saber. Era um conselho estranho para um dedo mindinho, mas parecia certo se fosse para o anular esquerdo, mesmo sendo o anular do pé.
Em momentos como esse, o coração da menina dobrava-se para que os pés fossem palavras, ela sentia-se o dedo mindinho, protegida por um dedo quebrado e mesmo sem entender, ela continuava andando, seguindo as palavras do livro e do seu mindinho mudo. Ela nunca entendia exatamente porque o coração nunca quis sair desse espaço entre os dois dedos, pois a única coisa que lhe passava pela cabeça era não prestei atenção ao caminho, quase caí, mas tudo bem, foi por pouco. E continuava sua leitura. Mantenha os olhos no livro, e tudo ainda será certo, era seu pensamento nessas horas. E ela mantinha apenas um dos olhos na estrada, mesmo enquanto as palavras precisavam correr ao ritmo dos ônibus, para ter certeza de que ainda estavam indo para o local certo. É que a vida, ela brincou, pensando sozinha enquanto subia no ônibus de volta pra casa, a vida é uma estrada de palavras. E é, alguém respondeu baixinho ao seu ouvido, de maneira tão sutil que estava claro que era a verdade. É claro que ela achou intrigante, mas passou pela catraca do ônibus, sorrindo para o cobrador. Ele sorriu com os olhos, agradecido pelo cumprimento. E é mesmo. Ela olhou para o cobrador como quem recebe uma resposta que não pediu, e ele parecia contar-lhe um segredo antigo, uma espécie de olhar confidente. Ela não sabia por que, mas nesse momento, achou que eram palavras de alguém já conhecia, embora não o reconhecesse, e que sabia qual palavra estava escondida em seu pé naquele exato momento: era a última, e ao mesmo tempo, a primeira. E ao invés de pensar em qual era palavra, ela simplesmente acreditou que já a tinha dito. E então a voz perguntou novamente: e você sabe? Ela não respondeu, apenas continuou a leitura,  porque é isso que  que fazemos, apenas seguimos com a palavra calada no peito. Que coincidência, parece o mesmo que ela ouviu momentos antes de entrar no ônibus, quando o pé dobrou-se em si mesmo. O sentimento ainda era igual, embora com outro significado, renovado. Ela não mais estava perdida, voltava para casa pelo caminho habitual.